terça-feira, 29 de dezembro de 2009

E o que vai ficando pelo caminho….

Só quem ousou a fazer uma monografia com duas crianças gritando na orelha, te solicitando o tempo todo; e com uma mãe que auxiliava – na medida do possível-, mas que reclamava/cobrava a minha ausência como ‘mãe que dá banho, comida e põe pra dormir’; juntamente com um ex-marido praticamente ausente, porque ELE NECESSITAVA CUIDAR DOS NEGÓCIOS E DA SUA SAÚDE MENTAL, sabe o quanto é difícil - muitas vezes, quase impossível- conciliar maternidade, profissão e matrimônio.

Não dá. Uma hora a coisa expira pra um lado. No meu caso, expirou pros três.

Alguns insistem que fugi da maternidade, que fugi das responsabilidades. Fugi? Fugi? Eu fugi é tudo, meus queridos…

(Ter coragem de acabar quando se quer, é privilégio daqueles que viveram tão intensamente que mais nada os pode afetar.)

Bem, e nem vou ficar falando da carga que a mulher carrega nas costas, da cobrança interna – que, por vezes, é muito maior do que a externa-, e da discriminação da imagem da mulher profissional(como se fossemos/estivessemos available para ser comida a todo tempo e a toda hora)

Ah, e porque o desabafo?

Porque acabei de ler isso. Só.

(Respirando…)

E nessa impossibiliade de papéis me lembrei de Sylvia Plath.

Encomendei esta caixa de madeira
Clara, exata, quase um fardo para carregar.
Eu diria que é um ataúde de um anão ou
De um bebê quadrado
Não fosse o barulho ensurdecedor que dela escapa.

Está trancada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela e
Não consigo me afastar.
Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.
Apenas uma pequena grade e nenhuma saída.

Espio pela grade.
Está escuro, escuro.
Enxame de mãos africanas
Mínimas, encolhidas para exportação,
Negro em negro, escalando com fúria.

Como deixá-las sair?
É o barulho que mais me apavora,
As sílabas ininteligíveis.
São como uma turba romana,
Pequenas, insignificantes como indivíduos, mas meu deus, juntas!

Escuto esse latim furioso.
Não sou um César.
Simplesmente encomendei uma caixa de maníacos.
Podem ser devolvidos.
Podem morrer, não preciso alimentá-los, sou a dona.

Me pergunto se têm fome.
Me pergunto se me esqueceriam
Se eu abrisse as trancas e me afastasse e virasse árvore.
Há laburnos, colunatas louras,
Anáguas de cerejas.

Poderiam imediatamente ignorar-me.
No meu vestido lunar e véu funerário
Não sou uma fonte de mel.
Por que então recorrer a mim?
Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-los.

A caixa é apenas temporária.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A pureza do pensar.

"A maldição de pensar fez suas vítimas: em minha geração, vi muitos poetas se transformarem em críticos, teóricos, professores de literatura” - P.Leminski.

É.

Poetas???!! Poucos.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Marginalizando verbos.

Por Sérgio Albergaria.

SER e TER, a insustentável pobreza dos verbos.

Dizem que “uma das qualidades do bom texto é justamente o capricho na linguagem” e que, por isso, a “exaustiva repetição de verbos extremamente empregados dada a sua funcionalidade, revela um repertório pequeno do escritor”.

Entre esses verbos estão os genéricos “ser” e “ter”.

Afinal, dizem por aí que o verbo ser é pobre e, como tal, empobrece o texto.

Penso que isso é ter má-vontade com os coitados, puro preconceito.

Aliás, de verbos genéricos ou auxiliares de tempo como esses, deveriam ser denominados como verbos discriminados, ou verbos criminosos. Usar os verbos ser e ter, para alguns, passou a ser crime lingüístico.

Cabe uma campanha: pela descriminalização dos verbos ser e ter!

Meu pai dizia, citando um vendedor de armazém: “sereis o que devereis ser do contrário sereis nada”.

Esse vendedor de armazém devia ser um sábio.

Na língua portuguesa, os verbos ter, haver, ser, estar, ir e andar são verbos auxiliares de tempo.

Que tempo bicudo esse, durante o qual se faz apologia da pobreza do ser, ou proselitismo do empobrecimento do texto que tenha a coragem de ser autêntico.

Penso que excluir o verbo ser não passa de implicância de eruditos, ou de candidatos à erudição pedante, espécie de classe dominante das letras opressora dos operários das palavras. Aliás, exclusão já significa não ser.

Milan Kundera tem razão ao afirmar “A insustentável leveza do Ser” e Jean Paul Sartre também não fica atrás ao discorrer sobre “O Ser e o Nada”. Gente de peso essa. Quem sou eu para ter a petulância de afrontá-los!?

“Entre o ser e o não ser há o nada, a não existência que configura a morte, enquanto negação do ser.”

Coitado do verbo ser! Querem que inexista, que morra, querem negá-lo.

Diz Milan Kundera: “O homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado”.

Pelo fato da vida ser, relativamente, tão curta e não comportar “reprises”, para emendarmos nossos erros, somos forçados a agir, na maior parte das vezes, por impulsos, em especial nos atos que tendem a determinar nosso futuro. Somos como atores convocados a representar uma tragédia (ou comédia), sem ter feito um único ensaio, apenas com uma ligeira e apressada leitura do script. Nunca saberemos, de fato, se a intuição que nos determinou seguir certo sentimento foi correta ou não. Não há tempo para essa verificação. Por isso, precisamos cuidar das nossas emoções com carinho muito especial.”

Afinal, como diz Kundera, “Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade."

Alguém se atreveria a afirmar que esse texto é pobre?

Não sei se é certo ou justo abolir o uso do verbo ser. Não sei se devo evitá-lo como a um ser repugnante e nauseabundo, ou se quero suprimi-lo de meu vocabulário para não empobrecer a minha linguagem, pois, como diz Milan Kundera, “Nunca se pode saber o que se deve querer, porque só se tem uma vida, que não pode ser comparada com vidas anteriores, nem retificada em vidas posteriores”.

Quero ter a liberdade de usá-lo, pobre e maltrapilho, com adornos de majestade ou em andrajos de pedinte, porque estou com Sartre:

A liberdade humana precede a essência do homem e torna-a possível: a essência do ser humano acha-se em suspenso na liberdade. Logo, aquilo que chamamos liberdade não pode se diferenciar do ser da “realidade humana”. O homem, não é primeiro para ser livre depois: não há diferença entre o ser do homem e seu ‘ser-livre’.”

Penso como Franz Kafka: a vida é um absurdo colossal, sem nenhum significado, tanto podendo ser um sonho quanto um pesadelo; tanto pode ser o tédio da mesmice estática como o movimento delirante e incógnito da dinâmica.

Nesse contexto, o uso do verbo ser não é uma pobreza de repertório lingüístico, mas a própria contradição humana, sonho e pesadelo, tédio e entusiasmo, estática dos pântanos e dinâmica dos mares.

Não ter vocabulário não significa necessariamente ser pobre de linguagem, porque a riqueza desta se expressa na farta exposição de idéias, que são o que são, tenham ou não o verbo ser, porque se não são idéias, serão nada, nada mais do que isso. Afinal, “ser ou não ser, eis a questão”.

Pro autor: Não, sogro, meu blog não é qualificado(tá mais pra uma sessão de descarrego, isso sim) mas sinto-o um pouco mais refinado e atraente quando posto coisas como essa.

Ah, desculpe-me pela invasão e petulância de criar um título.

Rebostagens.

Quando vejo uma coisa como essa nem sei direito o que pensar. A primeira coisa que me passa pela cabeça é que nós mulheres somos retardadas. , nós somos retardadas? Precisamos de um ‘guia de relacionamento’ nos orientando como receber a atenção, os holofotes num diálogo com nosso parceiro?

É de uma vitimização tão pueril que nos transformam numa única coisa: bestas quadradas. E na boa, mas não existe nada mais ridículo do que isso. Juro. E sinto pena das mulheres que se entregam à coisas como essa.

Por acaso vocês já viram algum guia do tipo: homem, saiba como fazer pra que você se sinta ouvido pela sua parceira?

Ai, dá licença, mas penso que se fosse necessário um guia pra ser ouvida pelo meu parceiro, tipo desses que vêm junto com eletrodomésticos, na boa, mas prefereria deixá-lo[s] bem guardadinho na caixa. Ele e o guia.

E a sra. reportagem começa esculachando logo no primeiro item:

Não seja emocional.

NOOOOOOOSSA, somos tão coração, ? Se eu fosse um homem iria me ofender com a sra.reportagem. Juro. E simplesmente porque sou um humano.

Ah, atentem-se agora para o item 4:

Mulheres, escutem caladinhas o que a sra. reportagem diz:

Calem a boca já! Nunca, never, jamé falem demais, senão estaremos oprimindo nossos machos – Pior, corremos o risco de perdê-los (Se eu tivesse um namorado, marido ou ficante que pensasse dessa forma, queria mais é que ele ficasse beeeem longe. 4km de preferência. Isso sim.)

Item 6: Nós somos as mestres em supor. NOOOOSSSA, será algo genético, sra. reportagem? Será que somente nós mulheres somos as paladinas no supor? Bem, minha experiência com o sexo oposto prova completamente o contrário.

Por favor, pessoas, quanta mediocridade.

Ai, e deixa eu fazer um café e jogar WOW que eu ganho mais…

Ps.: E sim, a coisa toda foi elaborada/escrita por uma mulher.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

(Há tempos) deixando o remédio na cabeceira.

Na minha opinião, uma das melhores e mais lúcidas respostas que alguém já conseguiu dar para definir a angústia – e suas possíveis razões.

Peço desculpa aos analistas e psiquiatras que já tive até hoje; especialmente aos psiquiatras, que me indicaram as drogas mais eficientes existentes para afagar tamanho embrulho no estômago, aperto no peito e ofegante respiração. Mas não era isso o que eu queria…E sim, isso:

“Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondida. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria – o que também é uma forma de angústia.

Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia – e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.

Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda.”

E mais uma vez, Clarice Lispector em A Descoberta do Mundo.