Só quem ousou a fazer uma monografia com duas crianças gritando na orelha, te solicitando o tempo todo; e com uma mãe que auxiliava – na medida do possível-, mas que reclamava/cobrava a minha ausência como ‘mãe que dá banho, comida e põe pra dormir’; juntamente com um ex-marido praticamente ausente, porque ELE NECESSITAVA CUIDAR DOS NEGÓCIOS E DA SUA SAÚDE MENTAL, sabe o quanto é difícil - muitas vezes, quase impossível- conciliar maternidade, profissão e matrimônio.
Não dá. Uma hora a coisa expira pra um lado. No meu caso, expirou pros três.
Alguns insistem que fugi da maternidade, que fugi das responsabilidades. Fugi? Fugi? Eu fugi é tudo, meus queridos…
(Ter coragem de acabar quando se quer, é privilégio daqueles que viveram tão intensamente que mais nada os pode afetar.)
Bem, e nem vou ficar falando da carga que a mulher carrega nas costas, da cobrança interna – que, por vezes, é muito maior do que a externa-, e da discriminação da imagem da mulher profissional(como se fossemos/estivessemos available para ser comida a todo tempo e a toda hora)
Ah, e porque o desabafo?
Porque acabei de ler isso. Só.
(Respirando…)
E nessa impossibiliade de papéis me lembrei de Sylvia Plath.
Encomendei esta caixa de madeira
Clara, exata, quase um fardo para carregar.
Eu diria que é um ataúde de um anão ou
De um bebê quadrado
Não fosse o barulho ensurdecedor que dela escapa.
Está trancada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela e
Não consigo me afastar.
Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.
Apenas uma pequena grade e nenhuma saída.
Espio pela grade.
Está escuro, escuro.
Enxame de mãos africanas
Mínimas, encolhidas para exportação,
Negro em negro, escalando com fúria.
Como deixá-las sair?
É o barulho que mais me apavora,
As sílabas ininteligíveis.
São como uma turba romana,
Pequenas, insignificantes como indivíduos, mas meu deus, juntas!
Escuto esse latim furioso.
Não sou um César.
Simplesmente encomendei uma caixa de maníacos.
Podem ser devolvidos.
Podem morrer, não preciso alimentá-los, sou a dona.
Me pergunto se têm fome.
Me pergunto se me esqueceriam
Se eu abrisse as trancas e me afastasse e virasse árvore.
Há laburnos, colunatas louras,
Anáguas de cerejas.
Poderiam imediatamente ignorar-me.
No meu vestido lunar e véu funerário
Não sou uma fonte de mel.
Por que então recorrer a mim?
Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-los.
A caixa é apenas temporária.

